UNESC

(1.0) — Modernidade e Estado Democrático

Objetivos de aprendizagem

Ao final deste subtítulo, o estudante deverá ser capaz de:

  • Analisar a constituição da modernidade como processo histórico, identificando suas transformações nas formas de organização social, política, econômica e cultural.
  • Interpretar o papel da racionalização, da ciência e do humanismo na redefinição das relações entre indivíduo, sociedade e instituições.
  • Relacionar a consolidação da modernidade à formação do Estado moderno e do Estado Democrático de Direito, compreendendo seus fundamentos institucionais e políticos.
  • Refletir criticamente sobre os limites, contradições e desigualdades produzidas pela modernidade, especialmente no âmbito do capitalismo, da cidadania e da distribuição de direitos.
  • Por que muitas características da vida social contemporânea parecem “naturais”, mesmo sendo historicamente construídas?
  • De que maneira a modernidade transforma a relação entre razão, ciência, religião e ação humana?
  • Como o processo de racionalização reorganiza instituições como o Estado, o mercado e o sistema jurídico?
  • Quais contradições a modernidade produz no campo da economia, da desigualdade e da distribuição de direitos?
  • De que forma o Estado Democrático de Direito emerge como resposta às transformações modernas e às demandas por cidadania??

O fato de vivermos no século XXI nos dificulta compreender como certos traços das nossas sociedades foram fruto de uma criação, justamente por termos naturalizado tantas coisas. Nossas características mais comuns não nos chamam atenção, então as vezes é preciso olhar para o passado para enxergar melhor quem somos. A Sociologia parte exatamente desse exercício de estranhamento da realidade social, buscando compreender como normas, comportamentos, organizações e formas de poder são historicamente construídos e socialmente reproduzidos (BERGER; LUCKMANN, 2004).

Um segundo elemento para analisar as nossas sociedades certamente é o que chamamos de modernidade. Os historiadores costumam denominar modernidade o período que se inicia no século XVIII, a partir da Europa e dos EUA. Segundo apontam, a partir desta fase muitos fatores mudaram, fazendo com que nos tornássemos um tipo de sociedade completamente distinto. Autores como Giddens (2002) destacam que a modernidade reorganiza profundamente o tempo, o espaço, as instituições políticas, o mercado, a ciência e a vida cotidiana, produzindo novas formas de organização social.

Até então, as sociedades eram tradicionalmente regidas por uma visão cósmica, segundo a qual o ser humano tinha um papel perante o universo. Isso significava que os humanos, em sua imensa maioria, acreditavam na existência de uma organização mística das coisas existentes no mundo, cada uma com uma característica, de forma que o poder humano se encontrava restrito às suas capacidades dadas pela grande criação (HARARI, 2016).

Foi exatamente a crença nesse projeto cósmico que começou a ruir na modernidade. Em outras palavras, para a maior parte das questões, passamos a considerar que podemos mudar as coisas e definir os rumos das nossas vidas. Diferentemente do que as religiões definiam, o humano moderno vai perdendo a crença de que há um roteiro planejado para nossa existência, dando assim uma liberdade ao agir humano como nunca antes. Não acreditando mais que as escrituras sagradas continham todo o conhecimento do mundo, a modernidade passou a se permitir correr atrás de novas descobertas, fortalecendo a confiança na razão, na experimentação científica e na capacidade humana de intervir sobre a realidade (GIDDENS, 2002).

Distanciando-se de ideia de que existem propósitos definidos para os seres, os modernos preferem se preocupar com as causas dos acontecimentos. Eles se caracterizam por essa sede de saber e inventar, alimentam-se do desejo de poder por meio do progresso científico e do crescimento econômico. Weber (2004) interpreta esse processo como racionalização da vida social, no qual as ações humanas passam a ser organizadas por critérios de eficiência, cálculo, previsibilidade e controle técnico, influenciando profundamente o funcionamento das instituições modernas, como o Estado, as empresas, o sistema jurídico e a administração pública.

Ao tomar as rédeas do seu destino e investigar as relações de causalidade, as sociedades modernas apostaram também em sua capacidade de produzir e prestar serviços. A economia deslancha a partir da revolução industrial, possibilitando criar soluções que podem dar mais conforto, saúde e alimento a todos, apesar de termos falhado seriamente na distribuição desses benefícios. Esse processo consolida o capitalismo como sistema econômico dominante, reorganizando o trabalho, o consumo, as relações de produção e a circulação de riquezas (MARX, 2013).

Basicamente, a ciência tornou possível ao humano ter ambientes climatizados, desenvolver remédios contra vírus e bactérias, bem como produzir comida para nunca mais passar fome. A ciência moderna alinhada com sua capacidade produtiva mudou profundamente o mundo. O grande problema, contudo, restou sobre a dificuldade de os humanos promoverem crescimento econômico sem avareza e sem desigualdade. Aparentemente, este cálculo se tornou menos importante e a modernidade se preocupou mais em produzir do que compartilhar. Para Marx (2013), essa contradição decorre da própria lógica do capitalismo, que se baseia na acumulação, na mercantilização do trabalho e na concentração de riqueza, produzindo desigualdades estruturais e conflitos sociais persistentes.

O foco no aprimoramento das coisas mundanas, acelerado pelas descobertas científicas e tecnológicas, demandou e encontro de uma nova atribuição de sentidos. Se já não podíamos nos guiar pelos dogmas religiosos, foi preciso encontrar um novo fundamento, eis que surge o que chamamos de “humanismo”.

Atribui-se ao humanismo a ideia de que o grande fundamento dos nossos atos não está mais em promessas religiosas ou místicas, mas na própria capacidade humana de construir o seu caminho e destino. Logo, o grande sentido que damos às nossas escolhas passaram a vir das nossas experiências. Sãs as experiências interiores que darão significado à vida e ao mundo.

Assim, a vida comum dos sapiens deixou de ser ditada por entidades sobrenaturais e passou a ser por orientada pela crença no seu próprio livre-arbítrio. Apesar de as religiões continuarem presentes, a modernidade opera uma divisão de espaços e responsabilidades: haverá o âmbito religioso e haverá o âmbito humanista.

Exatamente por isso, em regra as pessoas procuram autoridades religiosas demandando certas respostas e procuram os serviços humanos procurando respostas muito distintas. Desde a modernidade, os humanos não irão procurar um padre para tratar de uma doença curável, assim como não irão procurar um médico para obter apoio divino. Cada coisa no seu lugar. 

A crença na ciência e na técnica humana alcança uma relevância imensa, isso porque as sociedades modernas passaram a crer que o grande guia do seu dia-a-dia são os sentimentos e desejos humanos. A capacidade de construir um novo mundo com base na própria criatividade humana e na vontade de satisfação das suas necessidades.

O critério moderno para definir se uma conduta é adequada não está em nenhum livro sagrado, ele está no fato de que o ser humano se sinta bem. Como destaca Harari (2016, p. 718): “O humanismo nos ensinou a pensar que algo só pode ser ruim se fizer com que alguém se sinta mal. O assassinato está errado não porque algum deus alguma vez disse: Não matarás. O assassinato está errado porque causa um sofrimento terrível à vítima, aos membros de sua família e a seus amigos e conhecidos.”

Portanto, é o nosso próprio desejo de ter uma vida segura, de poder conquistar nossos bens e usar deles, de poder alcançar nossos objetivos profissionais, poder gozar de momentos de lazer com amigos e familiares, são esses objetivos bem mundanos que passaram a nortear o certo e errado, atribuindo sentido e valor aos atos em geral.

Os sentimentos humanos se tornaram o grande motivo de todas as coisas, a lente a partir da qual os modernos conduzem o mundo. Os modernos pensam assim sobre a forma com que levam suas vidas privadas como também a maneira com que guiam suas coletividades. A política e os arranjos sociais em geral são regidos pela ideia de buscar os mecanismos que nos fornecem os melhores resultados concretos e verificáveis. Por exemplo, não acreditamos mais que nossos governantes são escolhidos por Deus, queremos escolher nós mesmos nossos líderes com base em dados reais, ante às promessas feitas e as possibilidades reais de sua concretização. Esse processo está diretamente ligado à consolidação do Estado moderno e do Estado Democrático de Direito, fundamentado na soberania popular, na legalidade, na separação de poderes e na ampliação da cidadania (BOBBIO, 2000; MARSHALL, 1967).

Nesse contexto, a cidadania moderna se constrói progressivamente por meio da conquista de direitos civis, políticos e sociais, ampliando a participação dos indivíduos na vida pública e o acesso a políticas de proteção social (MARSHALL, 1967). A democracia depende da existência de regras institucionais estáveis, transparência, controle do poder e participação ativa da sociedade (BOBBIO, 2000). A legitimidade política se fortalece quando os cidadãos participam do debate público e da construção coletiva das decisões, elemento central da esfera pública analisada por Habermas (2003).

O humanismo impacta todas as áreas das nossas vidas: nas escolhas individuais, nas ações políticas, nas artes, na estética, na economia, no prazer e na dor. A grande ideia de base é que tudo diz respeito às escolhas que fazemos perante nossos desejos, crendo na nossa capacidade de pensar por conta própria e definir nossas próprias verdades.

Se nas sociedades medievais a lógica fundamental do conhecimento vinha das escrituras e da lógica, nas sociedades modernas o conhecimento vem fundamentalmente das experiências e da sensibilidade humana. As experiências são o resultado das sensações, emoções e pensamentos, já a sensibilidade é a capacidade de prestar atenção a essas questões e permitir que elas exerçam a devida influência sobre nós.

O objetivo humanista pode ser traduzido pela busca de mudança interior a partir das experiências de vida. A finalidade é desenvolver seu conhecimento por meio de inúmeras vivências físicas, intelectuais e emocionais. Tudo que é possível sentir e pensar, é também capaz de nos fazer melhores. A razão e a emoção são nossos guias.

É certo que o humanismo acabou se expressando de maneiras distintas, criando soluções e também muitos problemas. De certa forma, liberalismo, comunismo e evolucionismo são expressões da matriz humanista. Apesar de seguirem caminhos diversos, baseiam-se na ideia de que a experiência humana é o que dá significado a todas as coisas do universo.

Em suma, para entender nossas sociedades atuais, igualmente é fundamental compreender que elas são pertencentes à modernidade. Suas formas de encarar o mundo são moldadas à esta maneira, de forma muito diferente de tudo que havia acontecimento com as sociedades anteriores.

Modernidade, Racionalização, Humanismo e Estado Democrático de Direito.

A modernidade designa um amplo processo histórico que se consolida a partir do século XVIII, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, marcado por profundas transformações nas formas de organização do tempo, do espaço, da economia, da política, da ciência e da vida cotidiana. Diferentemente das sociedades tradicionais, estruturadas por visões cosmológicas e por fundamentos religiosos, a modernidade afirma a centralidade da razão, da experimentação científica e da capacidade humana de intervir conscientemente sobre a realidade social.

Anthony Giddens interpreta a modernidade como um rearranjo estrutural das instituições sociais, no qual práticas tradicionais cedem espaço a sistemas abstratos, técnicas especializadas e mecanismos de controle racional. Max Weber, por sua vez, descreve esse processo como racionalização da vida social: as ações passam a ser orientadas por critérios de eficiência, cálculo, previsibilidade e controle técnico, reorganizando o funcionamento do Estado, da burocracia, das empresas e do direito. A racionalidade instrumental torna-se o princípio organizador das instituições modernas.

Esse deslocamento também implica a emergência do humanismo, entendido como a valorização da experiência humana, da autonomia individual e do livre-arbítrio como fundamentos éticos e existenciais. A autoridade das escrituras religiosas deixa de ocupar o centro da produção de sentido, sendo substituída pela confiança na experiência, na sensibilidade e na capacidade humana de construir seus próprios projetos de vida. O bem e o mal passam a ser avaliados não por dogmas transcendentes, mas pelos efeitos concretos das ações sobre o sofrimento, o bem-estar e a dignidade humana.

No campo econômico, a modernidade consolida o capitalismo como sistema dominante, impulsionado pela Revolução Industrial, pela expansão da produção, pela mercantilização do trabalho e pela concentração de riquezas. Para Marx, essa dinâmica produz uma contradição estrutural: ao mesmo tempo em que amplia a capacidade produtiva da sociedade, gera desigualdades profundas, exploração do trabalho e conflitos sociais persistentes.

No plano político, essas transformações conduzem à formação do Estado moderno e, posteriormente, do Estado Democrático de Direito, fundamentado na soberania popular, na legalidade, na separação de poderes e na ampliação progressiva da cidadania. A democracia moderna depende da institucionalização de regras estáveis, da transparência, do controle do poder e da participação ativa dos cidadãos no espaço público. A cidadania, conforme analisado por Marshall, constrói-se historicamente por meio da conquista de direitos civis, políticos e sociais, ampliando gradualmente a inclusão dos indivíduos na vida pública.

Assim, modernidade, racionalização, humanismo, capitalismo e democracia não são fenômenos isolados, mas dimensões interdependentes de um mesmo processo histórico que redefine profundamente a forma como os indivíduos se relacionam com o Estado, o mercado, o conhecimento e a própria experiência de viver em sociedade.

Imagine um estudante universitário que utiliza diariamente plataformas digitais para acessar o ambiente virtual de aprendizagem, realizar atividades avaliativas, consultar indicadores de desempenho, acompanhar prazos acadêmicos e solicitar serviços administrativos. Cada uma dessas interações é mediada por sistemas burocráticos altamente racionalizados: formulários padronizados, fluxos automatizados, métricas de desempenho, prazos controlados por algoritmos e regras institucionais claramente definidas.

Esse ambiente expressa, de forma concreta, a racionalização descrita por Weber. As ações não dependem da vontade pessoal de um gestor ou de relações informais, mas de procedimentos técnicos, previsíveis e impessoais. Ao mesmo tempo, o estudante exerce sua autonomia: escolhe horários de estudo, organiza sua rotina, define estratégias de aprendizagem e constrói seu próprio percurso formativo — uma expressão direta do humanismo moderno, que valoriza a capacidade individual de decisão e a experiência subjetiva.

No campo da cidadania, esse mesmo estudante participa de processos democráticos institucionais, como eleições para representação discente, consultas públicas sobre mudanças curriculares ou avaliações institucionais. Ele não aceita que decisões sejam tomadas por “autoridade divina” ou por hierarquias incontestáveis; espera transparência, prestação de contas e possibilidade de participação — fundamentos do Estado Democrático de Direito.

Contudo, o mesmo contexto revela contradições modernas. Nem todos os estudantes possuem acesso equitativo à tecnologia, à internet de qualidade ou a ambientes adequados de estudo. As desigualdades socioeconômicas interferem diretamente na capacidade de usufruir plenamente das oportunidades oferecidas pela modernidade. Além disso, a lógica de desempenho, produtividade e competitividade pode gerar sobrecarga, ansiedade e exclusão simbólica.

Esse exemplo evidencia como a modernidade não é apenas um conceito abstrato, mas uma experiência vivida cotidianamente nas instituições educacionais, nas relações de trabalho, nos sistemas administrativos e na própria construção da cidadania, articulando racionalização, autonomia, direitos e desigualdades de forma concreta.

A modernidade representa uma ruptura histórica com as formas tradicionais de organização social, substituindo visões cosmológicas e fundamentos religiosos pela centralidade da razão, da ciência e da ação humana consciente. Esse processo redefine profundamente o modo como os indivíduos compreendem o mundo, organizam suas instituições e constroem sentidos para a vida social.

A racionalização, conforme analisada por Weber, estrutura as instituições modernas a partir de critérios técnicos, de eficiência e previsibilidade, impactando o funcionamento do Estado, do mercado e da administração pública. O humanismo, por sua vez, desloca o fundamento ético para a experiência humana, para o livre-arbítrio e para a responsabilidade individual na construção dos próprios projetos de vida.

No campo econômico, a consolidação do capitalismo amplia a capacidade produtiva da sociedade, mas também produz desigualdades estruturais e conflitos sociais, conforme a crítica marxiana. Politicamente, a modernidade viabiliza a formação do Estado Democrático de Direito, sustentado pela soberania popular, pela legalidade, pela separação de poderes e pela ampliação progressiva da cidadania.

Compreender a modernidade, portanto, permite analisar criticamente tanto os avanços institucionais, científicos e democráticos quanto suas contradições, limites e impactos sociais. Essa leitura é fundamental para interpretar as dinâmicas contemporâneas e para situar o indivíduo dentro das transformações históricas que moldam o mundo atual.

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