UNESC

(1.0) — A Revolução dos Sapiens

Objetivos de aprendizagem

Ao final deste subtítulo, o estudante deverá ser capaz de:

  • Analisar criticamente como as revoluções cognitiva, agrícola e científica impactaram as formas de organização social, os modos de cooperação, a produção de conhecimento e as relações entre indivíduo, sociedade e tecnologia;
  • Articular conceitos das ciências humanas e da Sociologia para interpretar o papel da linguagem, da cultura e das ordens imaginadas na constituição das instituições sociais e das dinâmicas coletivas;
  • Investigar transformações sociais, culturais e comportamentais decorrentes do avanço científico e tecnológico, reconhecendo seus dilemas, riscos e oportunidades na sociedade contemporânea;
  • Aplicar a perspectiva sociológica para interpretar situações do cotidiano que envolvem construções simbólicas, confiança social, mediação tecnológica e organização institucional;
  • Reconhecer a interdependência entre fatores biológicos, culturais, sociais e tecnológicos na constituição do humano e na produção das formas de vida em sociedade.
  • Por que o Homo sapiens se diferenciou das demais espécies humanas ao longo da história?
  • Como a linguagem simbólica e as narrativas compartilhadas possibilitaram a cooperação em larga escala?
  • De que forma a Revolução Agrícola transformou a organização social, política e econômica?
  • Como a ciência moderna alterou profundamente a relação dos humanos com a natureza, o trabalho e a tecnologia?
  • Quais benefícios e riscos estão associados às transformações científicas e tecnológicas?

O historiador israelense Yuval Noah Harari é uma das maiores autoridades mundiais no estudo sobre os seres humanos e suas sociedades. Suas obras marcam um paradigma para as atuais pesquisas nas humanidades, tendo se tornado best-sellers em todos os países nos quais foram traduzidos.

Sapiens (Harari, 2020) é a sua obra mais famosa, livro no qual aborda de forma extraordinária inúmeros conhecimentos sobre as espécies humanas que habitam a terra há cerca de 2,5 milhões de anos, mas tendo como foco especial a única espécie humana que sobreviveu. Conforme já comprovado pela antropologia, o Homo Sapiens conviveu com outras espécies de humanos por milênios, mas todas as demais se extinguiram cerca de 13 mil anos trás.

Segundo o autor, a história dos Sapiens podem ser traduzida em três grandes revoluções: Cognitiva (70 mil anos atrás), Agrícola (12 mil anos atrás) e Cognitiva (500 anos atrás.

A revolução cognitiva representa o momento em que os humanos desenvolveram uma especial habilidade de pensar e se comunicar. O surgimento de linguagens complexas, capazes de transmitir sentidos precisos, possibilitando compartilhamento de informações relevantes, é um gigantesco divisor de águas.

A partir daí, os seres humanos passaram a ser capazes de criar e se mover a partir de realidades imaginadas, permitindo cooperação em larga escala, algo bastante diferente dos demais animais existentes no planeta. O desenvolvimento de mitos e crenças comuns permitiu um salto na organização social, com agrupamentos mais bem geridos, com normas, identidades e divisão de funções.

Enfim, sua capacidade cognitiva diferenciada permitiu aos sapiens compreender de maneira singular o mundo e modifica-lo, a partir de sistemas de pensamento que podemos denominar de “cultura”.  O desenvolvimento de linguagens flexíveis possibilitou aos humanos receber, armazenar e comunicar um enorme volume de informações, de forma que por meio de ficções e lendas pudessem cooperar como nunca antes.

Assim, os humanos tem sido capazes de transmitir conhecimentos de geração em geração, se proteger de ameaças, conquistar territórios e prover suas diversas satisfações. Em outras palavras, as culturas permitiram os humanos se modificarem e se desenvolverem. Como conclui o autor, a revolução cognitiva “marca o ponto em que a história declarou sua independência da biologia” (Harari, 2020, p. 118), de maneira que os seres humanos passam a ser movidos predominantemente por suas as ideias, imagens e fantasias.

A segunda revolução foi a agrícola, momento em que há uma transição do modo nômade de vida (caçadores-coletores) para a constituição de sociedades sedentárias, fixadas em territórios, pois passaram a ser capazes de domesticar plantas e animais.

Neste novo contexto, os humanos alcançam um grande aumento populacional, devido à nova disponibilidade de alimentos à mão. Por consequência, uma série de novidades passam constituir as formas de vida em comum, a partir do surgimento de organizações sociais e políticas com hierarquias imaginadas (reinos, impérios), assim como ampliação da desigualdade no acúmulo de bens e divisão de castas socias. As revoluções trouxeram soluções e problemas.

É nesta segunda revolução também que os humanos desenvolvem a capacidade de se relacionar com os números, os cálculos e a escrita. Estas conquistas permitem uma troca de dados mais segura e precisa, bem como um armazenamento bem maior de informações. Tais novidades promoveram um outro tipo de sociedade, na qual a burocracia e a comunicação por textos constituíram redes sociais bem mais complexas que as anteriores.

Por fim, a terceira revolução é a Científica. A partir dos anos 1500 d.c., registra-se o surgimento uma nova forma de pensar e descobrir a verdade, denominada ciência moderna. Com o desenvolvimento de métodos e técnicas de estudar as coisas do mundo, o ser humano tomou maior consciência de sua ignorância na medida que entendia melhor alguns mistérios da natureza, permitindo-se partir em direção ao conhecimento racional.

O uso da observação e da experimentação indicam métodos inovadores para alcançar a verdade, autorizando a identificação de leis da natureza. Invenções como a energia elétrica, o motor a combustão, a computação, a manipulação de medicamentos, forneceram um progresso sem igual, com um ritmo acelerado impensável para as gerações passadas. 

A revolução científica permitiu a revolução industrial, conformando toda uma nova forma política em torno do trabalho e da produção de bens e serviços. Com isto, nasce o que denominamos de capitalismo, consistente num modo particular de relação humana baseada na troca, na divisão de tarefas, no acúmulo de bens e na negociação da força de trabalho. Juntamente com estes, por fim, podemos registrar o surgimento do Estado moderno, constituindo uma forma muito específica de organização social na qual se enfraquecem certos vínculos tradicionais familiares e grupais em favor de um monopólio do poder nas mãos do Estado.

A crença no progresso e os meios para domar a natureza permitiram uma mudança profunda nas sociedades humanas, nem sempre com resultados positivos, como a bomba atômica de Hiroshima pode atestar. Sobretudo a partir do século XIX, há uma expansão das diversas formas de ciência, que se espalham para campos antes inimagináveis até para as pessoas mais criativas.

Portanto, se para Harari a grande chave para compreender o diferencial dos humanos é sua capacidade de produzir ordens imaginadas, ficções e organizar suas condutas coletivas, a revolução científica representou um passo decisivo para compreender a forma com que vivemos na atualidade, na medida em que a ciência moderna produz avanços para o conhecimento das verdades e para o desenvolvimento de tecnologias, sem os quais não podemos mais nos reconhecer nos dias de hoje.

Galileu, Descartes e Bacon foram os nomes centrais no início desta revolução, a qual poderíamos resumir pela introdução de uma lógica centrada na busca por provas a partir de métodos confiáveis. Seis parecem ser os traços mais úteis para entender essa inovação que chamamos ciência moderna (Chauí, 2000):

  1. Distinção entre sujeito e objeto de conhecimento.
  2. Uso de método.
  3. Análise e síntese.
  4. Encontro de leis gerais.
  5. Uso de instrumentos tecnológicos.
  6. Linguagem própria.

Portanto, considerando que as ciências constituem profundamente a forma com que vivemos e interagimos no século XXI, parece fundamental a seguir aprofundar um pouco sobre o que representam as humanidades, esse grupo de ciências que orbitam em torno do homem enquanto ser social.

Ordens Imaginadas – Conjunto de crenças, mitos, narrativas, símbolos e sistemas de significados compartilhados que permitem aos seres humanos organizar a vida coletiva para além dos vínculos biológicos imediatos. Segundo Harari, instituições como dinheiro, Estados, leis, religiões, empresas e direitos humanos existem porque grandes grupos de pessoas acreditam nessas construções simbólicas e agem como se fossem realidades objetivas. As ordens imaginadas viabilizam a cooperação em larga escala, a coordenação social complexa e a estabilidade institucional, mas também podem produzir desigualdades, conflitos e disputas de poder.

Um estudante utiliza diariamente aplicativos bancários, plataformas de pagamento digital, serviços de transporte por aplicativo e ambientes virtuais de aprendizagem. Ele confia que o dinheiro depositado em sua conta tem valor, que os contratos digitais serão respeitados, que o sistema de avaliação acadêmica é legítimo e que os dados armazenados na nuvem são protegidos por regras institucionais.

Nenhum desses elementos existe apenas como objeto físico: são construções simbólicas sustentadas por acordos sociais, normas jurídicas, tecnologias e crenças compartilhadas. O dinheiro digital, por exemplo, não possui valor intrínseco, mas funciona porque milhões de pessoas acreditam em sua legitimidade e aceitam utilizá-lo como meio de troca. Da mesma forma, uma universidade existe enquanto instituição porque seus diplomas, normas acadêmicas e processos avaliativos são reconhecidos socialmente.

Essa situação cotidiana ilustra o conceito de ordens imaginadas descrito por Harari, mostrando como a vida contemporânea depende da capacidade humana de criar realidades simbólicas compartilhadas que organizam comportamentos, relações econômicas, identidades sociais e formas de cooperação em larga escala.

As revoluções cognitivas, agrícolas e científicas representam marcos estruturantes na trajetória do Homo sapiens. A Revolução Cognitiva possibilitou o desenvolvimento da linguagem simbólica, da cultura e das ordens imaginadas, permitindo cooperação social ampliada e organização coletiva complexa. A Revolução Agrícola consolidou a sedentarização, o crescimento populacional, a formação de hierarquias, o surgimento das primeiras burocracias e o aprofundamento das desigualdades sociais. A Revolução Científica, por sua vez, inaugurou uma nova forma de produção do conhecimento baseada na observação, na experimentação e na racionalização, impulsionando o avanço tecnológico, o capitalismo industrial e a reorganização das instituições modernas. Essas transformações evidenciam que a história humana é resultado da interação entre biologia, cultura, tecnologia e organização social, configurando um processo dinâmico que molda continuamente as formas de viver, trabalhar, produzir conhecimento e se relacionar em sociedade.

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