(4.0) — Sociedade da Informação: Algoritmos, IA, Desinformação
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste subtítulo, o estudante deverá ser capaz de:
- Analisar a configuração da sociedade da informação e da sociedade em rede, compreendendo o papel das tecnologias digitais na reorganização das relações sociais, econômicas e políticas.
- Interpretar o funcionamento dos algoritmos e seus impactos sobre a circulação de informações, a formação de opiniões e os comportamentos sociais.
- Relacionar a disseminação da desinformação, das bolhas informacionais e da pós-verdade aos desafios contemporâneos da democracia, da cidadania e da ética digital.
- Refletir criticamente sobre os riscos e as oportunidades associados à expansão da inteligência artificial na produção de conteúdo, na vigilância e na governança dos dados.
Perguntas-guia
- Como a digitalização e a conectividade permanente transformaram as formas de interação social, trabalho e participação política?
- De que maneira os algoritmos influenciam o acesso à informação, a visibilidade de conteúdos e a formação de opiniões?
- Por que as bolhas informacionais e a desinformação representam riscos para a democracia e o debate público?
- Quais dilemas éticos emergem com o uso intensivo de dados, vigilância digital e inteligência artificial?
- Como construir formas de cidadania e governança democrática no ambiente digital?
Material de estudo
O fato de estarmos vivendo em um mundo profundamente digital e interconectado por meio de seus dispositivos é outro marco importante dos dias atuais. Trata-se de uma configuração social na qual a produção, circulação e controle da informação se tornam centrais para a organização da economia, da política, da cultura e das relações sociais, conforme analisado por autores clássicos da sociologia da comunicação e da sociedade em rede (CASTELLS, 2011).
Sobretudo nas duas últimas décadas, o mundo passou a interagir predominantemente por meios digitais. Estudos apontam que a maioria de nós está conectada à internet de forma constante, fazendo com que nossas vidas sejam mediadas pelas formas online (MORAES; TESTA, 2020). Esse processo é intensificado pela expansão da banda larga, pela popularização dos smartphones e pela consolidação das plataformas digitais como infraestruturas básicas da vida cotidiana.
Nossas comunicações cotidianas são feitas em sua maioria por dispositivos eletrônicos e redes sociais, mas também realizamos serviços, fazemos pagamentos e compramos produtos constantemente pelos veículos digitais. Isso mudou profundamente as sociedades, pois as formas como interagimos impactam diretamente como pensamos, aprendemos, consumimos e participamos da vida pública, configurando novas formas de sociabilidade, trabalho e organização econômica (CASTELLS, 2011).
Diferentemente dos imensos e caríssimos computadores criados na década de 1940, hoje temos computadores em nossas mãos quase incessantemente, a preços acessíveis. Os smartphones se tornaram ferramentas inevitáveis do século XXI, funcionando como uma espécie de extensão dos nossos corpos, ampliando capacidades cognitivas, comunicacionais e produtivas.
Utilizando o Brasil como exemplo, vale lembrar uma pesquisa do DataSenado realizada em 2019, segundo a qual 83% dos pesquisados disseram que as redes sociais influenciam muito a opinião das pessoas e 79% afirmaram que se informam sempre pelo WhatsApp (BRASIL, 2019). Outra pesquisa, realizada em 2022, descobriu que o país é o terceiro no mundo que mais usa as redes sociais, possuindo cerca de 131 milhões de contas ativas (COMSCORE, 2022). Esses dados indicam o grau de centralidade das plataformas digitais na formação da opinião pública e na circulação de informações.
Porém, identifica-se que o uso massivo das redes sociais como maneira predominante de interação traz desafios distintos do mundo offline. Como bem sabemos, elas funcionam a partir de políticas de gerenciamento criadas pelos aplicativos, bastando lembrar que a presença de algoritmos conduz a uma forma particular de experienciar esses programas. Os algoritmos são sistemas automatizados que organizam, classificam e recomendam conteúdos com base em dados coletados dos usuários, exercendo influência direta sobre visibilidade, engajamento e circulação de informações.
Likes, reações, histórico de busca, localização e tempo de visualização são dados constantemente armazenados e interpretados pelas plataformas, buscando ampliar a permanência dos usuários nos aplicativos e maximizar receitas publicitárias. Trata-se do que autores denominam economia da atenção e dos dados, na qual o comportamento humano se torna matéria-prima para modelos de negócio baseados em vigilância e predição de comportamentos (ZUBOFF, 2019).
Nesse contexto, merece especial atenção o surgimento do que se popularizou chamar de “bolhas”. Com os algoritmos e a possibilidade de criação de grupos exclusivos de comunicação, há uma nova realidade na qual as pessoas passam a ficar cada vez mais expostas apenas a conteúdos que confirmam suas próprias crenças, reduzindo o contato com perspectivas divergentes. Esse fenômeno, conhecido como bolhas informacionais ou filtros algorítmicos, favorece a polarização social e o enfraquecimento do debate público (MORAES; TESTA, 2020; PARISER, 2011).
Além disso, há pesquisas indicando como tais algoritmos são utilizados para fins políticos e comerciais. Propagandas são direcionadas de forma repetitiva para perfis específicos, ampliando a capacidade de convencimento e influência sobre escolhas de consumo e posicionamentos políticos. Isso significa que as plataformas digitais moldam percepções, desejos e comportamentos, tornando as interações digitais profundamente mediadas por interesses econômicos e estratégicos.
O documentário O dilema das redes ilustra esses riscos ao apresentar relatos de ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia que alertam para os impactos dos algoritmos na manipulação da atenção e na fragilização das democracias. Vale citar a declaração de Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano em 2018, reconhecendo falhas na contenção de notícias falsas, interferências eleitorais e violação de dados (THE WASHINGTON POST, 2018).
Não à toa, há uma crescente preocupação com a disseminação de fake news, pois os algoritmos tendem a favorecer conteúdos emocionalmente intensos, independentemente de sua veracidade. Organizações eleitorais e instituições democráticas têm reconhecido a desinformação como ameaça direta à integridade dos processos políticos (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2022).
Além das fake news, estudos indicam que os algoritmos favorecem a circulação de teorias conspiratórias, discursos extremistas e conteúdos violentos, ampliando tensões sociais e riscos democráticos (HARARI, 2024).
Confirmando a centralidade do problema, “pós-verdade” foi eleita a palavra do ano de 2016 pelo Dicionário Oxford, definida como situações em que fatos objetivos exercem menor influência na opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais (OXFORD LANGUAGES, 2016). Esse fenômeno revela uma crise da confiança na informação e nas instituições produtoras de conhecimento.
Falar de pós-verdade indica a diminuição da preocupação com a veracidade dos conteúdos compartilhados, favorecendo a circulação de narrativas alinhadas a identidades e interesses grupais. As redes sociais passam a substituir os meios profissionais de comunicação como principal fonte de informação, reduzindo os filtros éticos e editoriais que tradicionalmente regulavam a circulação de notícias (STANLEY, 2015).
Se na década de 2010 as redes sociais e seus algoritmos se consolidaram como eixo central da vida digital, a década de 2020 inaugura a expansão acelerada da inteligência artificial. Ferramentas como o ChatGPT ampliam capacidades produtivas, educacionais e comunicacionais, mas também introduzem novos desafios relacionados à autoria, veracidade, privacidade e responsabilidade.
IAs capazes de produzir textos, imagens e vídeos intensificam o risco de manipulação informacional, dificultando a distinção entre conteúdos autênticos e artificiais. Além disso, sistemas de IA vêm sendo utilizados em vigilância, reconhecimento facial e monitoramento comportamental, levantando preocupações éticas, jurídicas e políticas sobre liberdades individuais e controle social (HARARI, 2024).
Há o receio de que tecnologias altamente automatizadas possam viabilizar formas inéditas de autoritarismo digital, baseadas em monitoramento contínuo e decisões automatizadas, exigindo marcos regulatórios sólidos e governança democrática da tecnologia.
Diante desse cenário, torna-se fundamental fomentar a construção de democracias digitais, capazes de promover alfabetização midiática, pensamento crítico, transparência algorítmica, proteção de dados e participação cidadã. Defender direitos como privacidade, liberdade de expressão, diversidade, segurança informacional e autonomia política passa a ser um desafio central da cidadania contemporânea (CASTELLS, 2011; ZUBOFF, 2019).
Todos esses desafios apontam para a consolidação de um novo tipo de sociedade, na qual a política computacional, a ética digital e a governança dos dados tornam-se dimensões essenciais da vida democrática.
Concluindo, passamos por cinco aspectos que nos ajudam a entender melhor nossas sociedades: o Antropoceno, a modernidade, a pós-modernidade, as desigualdades geradoras de minorias e a sociedade da informação. Essas dimensões permitem compreender de forma integrada como vivemos no século XXI.
Box Conceito-chave
Sociedade da Informação, Algoritmos, Pós-verdade e Inteligência Artificial.
A sociedade da informação, também denominada sociedade em rede, caracteriza-se pela centralidade da produção, circulação e controle da informação como eixo estruturante da economia, da política, da cultura e das relações sociais. A expansão da internet, da conectividade móvel e das plataformas digitais transformou profundamente as formas de comunicação, aprendizagem, consumo e organização do trabalho, criando ambientes sociais altamente mediados por tecnologias digitais.
Manuel Castells descreve esse cenário como a emergência de redes informacionais globais, nas quais fluxos de dados, imagens, mensagens e capitais circulam em alta velocidade, reorganizando o poder, a produção e a cultura. A vida cotidiana passa a ser atravessada por dispositivos digitais que funcionam como extensões cognitivas e comunicacionais dos indivíduos, ampliando capacidades, mas também gerando dependências tecnológicas.
Nesse contexto, os algoritmos desempenham papel central. Trata-se de sistemas automatizados que processam grandes volumes de dados para classificar, priorizar e recomendar conteúdos, com base em padrões de comportamento dos usuários. Likes, histórico de navegação, localização, tempo de permanência e interações são utilizados para maximizar engajamento e retorno econômico das plataformas, configurando o que autores como Zuboff denominam economia da atenção e da vigilância.
Um dos efeitos sociais mais relevantes desse funcionamento é a formação das chamadas bolhas informacionais ou filtros algorítmicos. Os usuários passam a ser expostos predominantemente a conteúdos que confirmam suas crenças, valores e preferências, reduzindo o contato com perspectivas divergentes e enfraquecendo o debate público. Esse fenômeno contribui para a polarização social, a radicalização de discursos e a fragmentação do espaço público.
Associado a esse processo emerge o fenômeno da pós-verdade, no qual fatos objetivos perdem centralidade na formação da opinião pública, sendo substituídos por apelos emocionais, crenças identitárias e narrativas manipuladas. A disseminação de fake news, teorias conspiratórias e conteúdos extremistas fragiliza a confiança nas instituições, na ciência e no jornalismo, afetando diretamente a qualidade da democracia.
A expansão acelerada da inteligência artificial intensifica esses dilemas. Sistemas capazes de gerar textos, imagens, vídeos e decisões automatizadas ampliam ganhos de produtividade e acesso à informação, mas também criam novos riscos relacionados à autoria, à manipulação informacional, à privacidade, ao controle social e à concentração de poder tecnológico. O uso de IA em vigilância, reconhecimento facial e monitoramento comportamental levanta debates sobre liberdades civis, transparência algorítmica e governança democrática da tecnologia.
Assim, a sociedade da informação exige não apenas competências técnicas, mas também capacidades críticas, éticas e cidadãs para lidar com a complexidade informacional e tecnológica do mundo contemporâneo.
Box Exemplo aplicado
Imagine uma microempreendedora que atua no setor de alimentação e utiliza intensamente redes sociais para divulgar seus produtos, acompanhar tendências de consumo, buscar fornecedores e se informar sobre políticas públicas que afetam pequenos negócios. Ao interagir com determinados conteúdos — vídeos sobre marketing digital, notícias econômicas, opiniões políticas e conteúdos motivacionais — as plataformas passam a registrar seus padrões de comportamento e a direcionar, de forma automatizada, recomendações semelhantes.
Com o tempo, o fluxo de informações exibido em seu celular torna-se progressivamente homogêneo. Ela passa a receber predominantemente conteúdos que reforçam determinadas visões de mercado, discursos simplificados sobre empreendedorismo, promessas de enriquecimento rápido e interpretações polarizadas sobre políticas econômicas. Informações divergentes, análises críticas ou dados mais complexos tendem a aparecer com menor frequência, configurando uma bolha informacional construída algorítmicamente.
Em determinado momento, essa microempreendedora toma decisões estratégicas — como realizar investimentos, contratar serviços financeiros ou aderir a determinadas propostas comerciais — baseando-se em conteúdos amplamente compartilhados em grupos digitais, sem verificação rigorosa de fontes, evidências ou interesses envolvidos. Posteriormente, descobre que parte das informações era imprecisa ou manipulada, gerando prejuízos econômicos e insegurança.
Esse processo ilustra como os algoritmos não apenas organizam o consumo de informações, mas influenciam diretamente escolhas econômicas, comportamentos políticos e expectativas de futuro. Com a ampliação do uso de inteligência artificial na produção automatizada de conteúdos publicitários, imagens e vídeos, torna-se ainda mais difícil distinguir informações legítimas de materiais artificialmente construídos para persuadir, vender ou manipular.
No plano comunitário, essa dinâmica também impacta debates locais, eleições, políticas públicas e relações de confiança entre cidadãos. A ausência de filtros críticos e de transparência algorítmica fragiliza a qualidade do debate público e amplia o risco de desinformação estrutural. O exemplo evidencia a necessidade de alfabetização digital, pensamento crítico, responsabilidade informacional e governança democrática das tecnologias como dimensões centrais da cidadania contemporânea.
Síntese
A sociedade da informação reorganiza profundamente as relações sociais, econômicas e políticas, colocando a informação, os dados e as plataformas digitais no centro da vida cotidiana. Os algoritmos mediam o acesso aos conteúdos, influenciam comportamentos e moldam percepções, inserindo os indivíduos em ambientes informacionais altamente personalizados.
Esse funcionamento contribui para a formação de bolhas informacionais, para a disseminação de desinformação e para o fortalecimento da lógica da pós-verdade, fragilizando o debate público e a confiança nas instituições. A expansão da inteligência artificial amplia tanto oportunidades produtivas e educacionais quanto riscos éticos, jurídicos e políticos relacionados à manipulação, à vigilância e ao controle social.
Compreender criticamente a sociedade da informação implica reconhecer a necessidade de governança democrática da tecnologia, proteção de dados, transparência algorítmica e fortalecimento da cidadania digital, orientando práticas responsáveis no uso das tecnologias contemporâneas.