UNIDADE III: A REVOLUÇÃO DOS SAPIENS E O HUMANO COM BIOPSICOSSOCIAL

Competência da Unidade: Analisar criticamente as dinâmicas sociais contemporâneas a partir dos fundamentos e das teorias sociológicas clássicas e modernas, compreendendo as interconexões entre indivíduo, sociedade, mercado e tecnologia; Articular os conceitos fundamentais e as teorias clássicas da Sociologia para interpretar o desenvolvimento e a estrutura das sociedades; Compreender as relações entre as dinâmicas sociais e os sistemas econômicos, com foco nas transformações do mercado de trabalho e nos impactos socioeconômicos da globalização; Investigar as transformações sociais, culturais e comportamentais impostas pela cybercultura e pela sociedade em rede, avaliando seus dilemas e oportunidades; Aplicar a perspectiva sociológica na identificação de problemas e lacunas sociais, desenvolvendo uma visão propositiva para a formulação de soluções inovadoras e sustentáveis.

A Unidade III aprofunda a compreensão do ser humano como sujeito histórico, cultural e relacional, articulando duas grandes chaves interpretativas: as revoluções cognitivas, agrícolas e científicas descritas por Yuval Noah Harari, e a concepção do humano como ser biopsicossocial, desenvolvida no campo das ciências contemporâneas. Ao analisar como a capacidade simbólica, a produção de cultura, a ciência moderna e a interdisciplinaridade transformaram as formas de organização social, econômica e política, o módulo amplia a leitura crítica das relações entre indivíduo, sociedade, tecnologia e mercado. Ao mesmo tempo, a abordagem biopsicossocial permite superar visões reducionistas do ser humano, integrando dimensões biológicas, psicológicas e sociais na interpretação dos comportamentos, das desigualdades, da saúde, do trabalho e da vida em sociedade.

As Revoluções dos Sapiens

Objetivos de aprendizagem

Ao final deste subtítulo, o estudante deverá ser capaz de:

  • Analisar criticamente como as revoluções cognitiva, agrícola e científica impactaram as formas de organização social, os modos de cooperação, a produção de conhecimento e as relações entre indivíduo, sociedade e tecnologia;
  • Articular conceitos das ciências humanas e da Sociologia para interpretar o papel da linguagem, da cultura e das ordens imaginadas na constituição das instituições sociais e das dinâmicas coletivas;
  • Investigar transformações sociais, culturais e comportamentais decorrentes do avanço científico e tecnológico, reconhecendo seus dilemas, riscos e oportunidades na sociedade contemporânea;
  • Aplicar a perspectiva sociológica para interpretar situações do cotidiano que envolvem construções simbólicas, confiança social, mediação tecnológica e organização institucional;
  • Reconhecer a interdependência entre fatores biológicos, culturais, sociais e tecnológicos na constituição do humano e na produção das formas de vida em sociedade.
  • Por que o Homo sapiens se diferenciou das demais espécies humanas ao longo da história?
  • Como a linguagem simbólica e as narrativas compartilhadas possibilitaram a cooperação em larga escala?
  • De que forma a Revolução Agrícola transformou a organização social, política e econômica?
  • Como a ciência moderna alterou profundamente a relação dos humanos com a natureza, o trabalho e a tecnologia?
  • Quais benefícios e riscos estão associados às transformações científicas e tecnológicas?

O historiador israelense Yuval Noah Harari é uma das maiores autoridades mundiais no estudo sobre os seres humanos e suas sociedades. Suas obras marcam um paradigma para as atuais pesquisas nas humanidades, tendo se tornado best-sellers em todos os países nos quais foram traduzidos.

Sapiens (Harari, 2020) é a sua obra mais famosa, livro no qual aborda de forma extraordinária inúmeros conhecimentos sobre as espécies humanas que habitam a terra há cerca de 2,5 milhões de anos, mas tendo como foco especial a única espécie humana que sobreviveu. Conforme já comprovado pela antropologia, o Homo Sapiens conviveu com outras espécies de humanos por milênios, mas todas as demais se extinguiram cerca de 13 mil anos trás.

Segundo o autor, a história dos Sapiens podem ser traduzida em três grandes revoluções: Cognitiva (70 mil anos atrás), Agrícola (12 mil anos atrás) e Cognitiva (500 anos atrás.

A revolução cognitiva representa o momento em que os humanos desenvolveram uma especial habilidade de pensar e se comunicar. O surgimento de linguagens complexas, capazes de transmitir sentidos precisos, possibilitando compartilhamento de informações relevantes, é um gigantesco divisor de águas.

A partir daí, os seres humanos passaram a ser capazes de criar e se mover a partir de realidades imaginadas, permitindo cooperação em larga escala, algo bastante diferente dos demais animais existentes no planeta. O desenvolvimento de mitos e crenças comuns permitiu um salto na organização social, com agrupamentos mais bem geridos, com normas, identidades e divisão de funções.

Enfim, sua capacidade cognitiva diferenciada permitiu aos sapiens compreender de maneira singular o mundo e modifica-lo, a partir de sistemas de pensamento que podemos denominar de “cultura”.  O desenvolvimento de linguagens flexíveis possibilitou aos humanos receber, armazenar e comunicar um enorme volume de informações, de forma que por meio de ficções e lendas pudessem cooperar como nunca antes.

Assim, os humanos tem sido capazes de transmitir conhecimentos de geração em geração, se proteger de ameaças, conquistar territórios e prover suas diversas satisfações. Em outras palavras, as culturas permitiram os humanos se modificarem e se desenvolverem. Como conclui o autor, a revolução cognitiva “marca o ponto em que a história declarou sua independência da biologia” (Harari, 2020, p. 118), de maneira que os seres humanos passam a ser movidos predominantemente por suas as ideias, imagens e fantasias.

A segunda revolução foi a agrícola, momento em que há uma transição do modo nômade de vida (caçadores-coletores) para a constituição de sociedades sedentárias, fixadas em territórios, pois passaram a ser capazes de domesticar plantas e animais.

Neste novo contexto, os humanos alcançam um grande aumento populacional, devido à nova disponibilidade de alimentos à mão. Por consequência, uma série de novidades passam constituir as formas de vida em comum, a partir do surgimento de organizações sociais e políticas com hierarquias imaginadas (reinos, impérios), assim como ampliação da desigualdade no acúmulo de bens e divisão de castas socias. As revoluções trouxeram soluções e problemas.

É nesta segunda revolução também que os humanos desenvolvem a capacidade de se relacionar com os números, os cálculos e a escrita. Estas conquistas permitem uma troca de dados mais segura e precisa, bem como um armazenamento bem maior de informações. Tais novidades promoveram um outro tipo de sociedade, na qual a burocracia e a comunicação por textos constituíram redes sociais bem mais complexas que as anteriores.

Por fim, a terceira revolução é a Científica. A partir dos anos 1500 d.c., registra-se o surgimento uma nova forma de pensar e descobrir a verdade, denominada ciência moderna. Com o desenvolvimento de métodos e técnicas de estudar as coisas do mundo, o ser humano tomou maior consciência de sua ignorância na medida que entendia melhor alguns mistérios da natureza, permitindo-se partir em direção ao conhecimento racional.

O uso da observação e da experimentação indicam métodos inovadores para alcançar a verdade, autorizando a identificação de leis da natureza. Invenções como a energia elétrica, o motor a combustão, a computação, a manipulação de medicamentos, forneceram um progresso sem igual, com um ritmo acelerado impensável para as gerações passadas. 

A revolução científica permitiu a revolução industrial, conformando toda uma nova forma política em torno do trabalho e da produção de bens e serviços. Com isto, nasce o que denominamos de capitalismo, consistente num modo particular de relação humana baseada na troca, na divisão de tarefas, no acúmulo de bens e na negociação da força de trabalho. Juntamente com estes, por fim, podemos registrar o surgimento do Estado moderno, constituindo uma forma muito específica de organização social na qual se enfraquecem certos vínculos tradicionais familiares e grupais em favor de um monopólio do poder nas mãos do Estado.

A crença no progresso e os meios para domar a natureza permitiram uma mudança profunda nas sociedades humanas, nem sempre com resultados positivos, como a bomba atômica de Hiroshima pode atestar. Sobretudo a partir do século XIX, há uma expansão das diversas formas de ciência, que se espalham para campos antes inimagináveis até para as pessoas mais criativas.

Portanto, se para Harari a grande chave para compreender o diferencial dos humanos é sua capacidade de produzir ordens imaginadas, ficções e organizar suas condutas coletivas, a revolução científica representou um passo decisivo para compreender a forma com que vivemos na atualidade, na medida em que a ciência moderna produz avanços para o conhecimento das verdades e para o desenvolvimento de tecnologias, sem os quais não podemos mais nos reconhecer nos dias de hoje.

Galileu, Descartes e Bacon foram os nomes centrais no início desta revolução, a qual poderíamos resumir pela introdução de uma lógica centrada na busca por provas a partir de métodos confiáveis. Seis parecem ser os traços mais úteis para entender essa inovação que chamamos ciência moderna (Chauí, 2000):

  1. Distinção entre sujeito e objeto de conhecimento.
  2. Uso de método.
  3. Análise e síntese.
  4. Encontro de leis gerais.
  5. Uso de instrumentos tecnológicos.
  6. Linguagem própria.

Portanto, considerando que as ciências constituem profundamente a forma com que vivemos e interagimos no século XXI, parece fundamental a seguir aprofundar um pouco sobre o que representam as humanidades, esse grupo de ciências que orbitam em torno do homem enquanto ser social.

Ordens Imaginadas – Conjunto de crenças, mitos, narrativas, símbolos e sistemas de significados compartilhados que permitem aos seres humanos organizar a vida coletiva para além dos vínculos biológicos imediatos. Segundo Harari, instituições como dinheiro, Estados, leis, religiões, empresas e direitos humanos existem porque grandes grupos de pessoas acreditam nessas construções simbólicas e agem como se fossem realidades objetivas. As ordens imaginadas viabilizam a cooperação em larga escala, a coordenação social complexa e a estabilidade institucional, mas também podem produzir desigualdades, conflitos e disputas de poder.

Um estudante utiliza diariamente aplicativos bancários, plataformas de pagamento digital, serviços de transporte por aplicativo e ambientes virtuais de aprendizagem. Ele confia que o dinheiro depositado em sua conta tem valor, que os contratos digitais serão respeitados, que o sistema de avaliação acadêmica é legítimo e que os dados armazenados na nuvem são protegidos por regras institucionais.

Nenhum desses elementos existe apenas como objeto físico: são construções simbólicas sustentadas por acordos sociais, normas jurídicas, tecnologias e crenças compartilhadas. O dinheiro digital, por exemplo, não possui valor intrínseco, mas funciona porque milhões de pessoas acreditam em sua legitimidade e aceitam utilizá-lo como meio de troca. Da mesma forma, uma universidade existe enquanto instituição porque seus diplomas, normas acadêmicas e processos avaliativos são reconhecidos socialmente.

Essa situação cotidiana ilustra o conceito de ordens imaginadas descrito por Harari, mostrando como a vida contemporânea depende da capacidade humana de criar realidades simbólicas compartilhadas que organizam comportamentos, relações econômicas, identidades sociais e formas de cooperação em larga escala.

As revoluções cognitivas, agrícolas e científicas representam marcos estruturantes na trajetória do Homo sapiens. A Revolução Cognitiva possibilitou o desenvolvimento da linguagem simbólica, da cultura e das ordens imaginadas, permitindo cooperação social ampliada e organização coletiva complexa. A Revolução Agrícola consolidou a sedentarização, o crescimento populacional, a formação de hierarquias, o surgimento das primeiras burocracias e o aprofundamento das desigualdades sociais. A Revolução Científica, por sua vez, inaugurou uma nova forma de produção do conhecimento baseada na observação, na experimentação e na racionalização, impulsionando o avanço tecnológico, o capitalismo industrial e a reorganização das instituições modernas. Essas transformações evidenciam que a história humana é resultado da interação entre biologia, cultura, tecnologia e organização social, configurando um processo dinâmico que molda continuamente as formas de viver, trabalhar, produzir conhecimento e se relacionar em sociedade.

O Humano como Biopsicossocial

Objetivos de aprendizagem

Ao final deste subtítulo, o estudante deverá ser capaz de:

  • Analisar criticamente a superação da lógica disciplinar e a emergência da interdisciplinaridade na produção do conhecimento científico contemporâneo;
  • Articular conceitos das humanidades, da Sociologia e das ciências da saúde para compreender o ser humano como resultado da interação entre dimensões biológicas, psicológicas e sociais;
  • Investigar transformações sociais, culturais e institucionais que exigem abordagens integradas para a compreensão de problemas complexos, como saúde, comportamento, educação e trabalho;
  • Aplicar a perspectiva biopsicossocial e sociológica na interpretação de situações concretas que envolvem condições de vida, bem-estar, desigualdades e contextos sociais;
  • Reconhecer limites de explicações reducionistas, valorizando abordagens interdisciplinares, éticas e contextualizadas na análise do humano.
  • Por que a fragmentação disciplinar passou a ser considerada insuficiente para compreender problemas complexos?
  • O que caracteriza uma abordagem interdisciplinar do conhecimento?
  • Como o modelo biopsicossocial amplia a compreensão do ser humano?
  • De que maneira fatores biológicos, psicológicos e sociais se articulam na produção da saúde, do comportamento e da vida social?
  • Quais riscos estão associados a interpretações simplificadoras ou deterministas sobre o humano?

Desde o nascimento do grande número de ciências no sec. XIX, vigorou a lógica da disciplinaridade, em que os conhecimentos deveriam ser separados para evoluir. Enfim, estudos de Direito não deveriam ser influenciados pela Medicina, assim como esta não deveria se misturar com a Engenharia. Cada um no seu lugar.

Não demoraria muito para que muitos estudiosos começassem a ver problemas nessa forma de pesquisar, pois muitas questões deixavam de ser enxergadas por conta deste isolamento. A disciplinaridade criou pontos cegos, zonas de pouca comunicação entre os diversos campos da ciência (Santos, 2008).

No século XX vemos o surgimento progressivo de uma nova forma de pensar a ciência, a partir do que chamamos de interdisciplinaridade. Foi-se percebendo que estudos mais complexos precisavam de interação entre os diversos saberes, principalmente diante de uma sociedade cada vez mais complexa, tendo que enfrentar novos desafios (Aleksandrowicz, 2002).

O processo de globalização, as tecnologias digitais e o surgimento de novos problemas de escala mundial, tais como as pandemias, aceleraram a necessidade de que os vários campos da ciência voltassem a dialogar para tentar oferecer novas soluções. Enfim, as grandes inovações científicas desde o sec. XX possuem o selo da interdisciplinaridade.

Como já dito, as humanidades se preocupam exatamente em compreender e fomentar o humano em suas expressões sociais. Todavia, essa pretensão nasceu no sec. XIX a partir de um paradigma chamado “positivista”. Significa dizer que a forma com que os cientistas pensavam o ser humano era a partir da ideia de que ele tinha expressões universais, padronizadas, objetivas. Seria possível compreender a natureza humana, uma natureza fixa e igual para todos.

Uma série de modificações nessa visão sobre os humanos iria ocorrer, sobretudo para superar essa visão com base em categorias universais (sujeito transcendental) e assumir uma visão que poderíamos chamar de “histórica” sobre quem somos. Dito de forma mais clara, os saberes humanísticos foram mudando sua visão sobre como compreender quem são os humanos, de maneira que os sujeitos passaram a ser compreendidos como resultantes de seus contextos sociais (Bourdieu, 2025). 

Enfim, pensamos e agimos de maneiras que nos são passadas, aprendemos a ser quem somos ao longo da vida, nas nossas relações, na nossa história. Fica impossível então tentar estabelecer interpretações sobre quem somos de maneira generalista, é preciso considerar que os sujeitos são o resultado das suas múltiplas interações. As pessoas estão em constante aprendizado e modificação.

Partindo destas novas descobertas e com um olhar interdisciplinar, surge a partir de meados do sec. XX uma constatação que parece ser um divisor de águas na maneira como devemos estudar: o ser humano é biopsicossocial (Engel, 1977).

Em outras palavras, para compreendermos o humano em sua devida complexidade, é preciso que levemos em consideração fatores do campo biológico, psicológico e social. É na interação destes fatores que temos melhores condições de nos entendermos de maneira adequada, sem cometermos erros de simplificação da realidade.

Jamais se pode esquecer que somos resultantes de questões biológicas (ex: genética, bioquímica, hormônios, homeostase), questões psicológicas (ex: emocionais, humor, personalidade, comportamento, cognição) e questões sociais (ex: econômicas, culturais, familiares, educacionais, condições de trabalho, violências). Justamente nesta conexão que hoje podemos melhor entender o que se passa com os humanos.

Esta é a visão encampada pela própria Organização Mundial de Saúde (OMS), órgão da ONU responsável pela cooperação internacional no campo da saúde. Segundo o conceito da instituição, “A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade” (Organização Mundial de Saúde, 1946).

Portanto, somos seres que se expressam na vida sempre a partir desta interação. Nosso corpo, mente e meio social se somam para resultar na forma com que pensamos, sentimos e nos comportamos. Somos complexos e a ciência precisa se adequar à nossa complexidade.

Não por outro motivo, o Ministério da Saúde do Brasil aponta que nossa saúde psíquica precisa ser compreendida na interrelação com os demais fatores. Vejamos nas palavras do órgão:

“O bem-estar de uma pessoa não depende apenas do aspecto psicológico e emocional, mas também de condições fundamentais, como saúde física, apoio social, condições de vida. Além dos aspectos individuais, a saúde mental é também determinada pelos aspectos sociais, ambientais e econômicos. A saúde mental não é algo isolado, é também influenciada pelo ambiente ao nosso redor. Isso significa que deve-se considerar que a saúde mental resulta da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Pode-se afirmar que a saúde mental tem características biopsicossociais” (Brasil, 2025).

Sendo assim, o que somos e o que podemos ser é fruto da somatória da nossa biologia, nossa mente e nossa sociedade. Portanto, se quisermos operar mudanças sobre os humanos, é preciso nos atentar para todos estes campos. Não teremos sucesso em construir um mundo melhor se esquecermos ou dermos menor importância a qualquer destes pontos, esta é uma constatação valiosa.

Enfim, temos aqui uma breve síntese de algumas das mais importantes descobertas científicas sobre os humanos que temos em mãos nos dias de hoje. Os saberes das humanidades atuais nos ajudam a ter uma melhor visão sobre os humanos, mas é preciso a seguir nos aprofundarmos justamente sobre que tipo de sociedade estamos lidando. Como pudemos constatar, nossa sociedade é fruto dos humanos, assim como os humanos são fruto da sociedade. É uma interação recíproca, um constitui o outro.

Modelo Biopsicossocial – Abordagem que compreende o ser humano como resultado da interação dinâmica entre três dimensões inseparáveis: a biológica (genética, fisiologia, funcionamento orgânico), a psicológica (emoções, cognição, personalidade, comportamento) e a social (condições econômicas, cultura, vínculos familiares, educação, trabalho, ambiente e políticas públicas). Proposto por George Engel e adotado por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde, esse modelo rompe com explicações reducionistas e permite analisar fenômenos humanos de forma integrada, contextualizada e interdisciplinar.

Uma estudante universitária apresenta queda no rendimento acadêmico, dificuldades de concentração e episódios frequentes de ansiedade. Uma análise restrita ao desempenho escolar poderia atribuir o problema exclusivamente à falta de esforço individual ou a dificuldades cognitivas. No entanto, ao adotar uma perspectiva biopsicossocial, observa-se que a estudante enfrenta longas jornadas de trabalho, insegurança financeira, poucas horas de sono, alimentação inadequada e reduzido apoio social.

Do ponto de vista biológico, o cansaço e a privação de sono afetam a atenção e a memória. No plano psicológico, a ansiedade compromete a capacidade de organização, tomada de decisão e autorregulação emocional. No campo social, as condições de trabalho, a pressão econômica e a ausência de redes de apoio impactam diretamente o bem-estar e a permanência no curso.

Essa leitura integrada evidencia que intervenções eficazes não podem se limitar a uma única dimensão, exigindo políticas institucionais de apoio estudantil, estratégias pedagógicas inclusivas e ações de promoção da saúde, exemplificando a aplicabilidade do modelo biopsicossocial na análise de situações concretas da vida social.

A compreensão do humano como ser biopsicossocial representa uma ruptura com modelos científicos fragmentados e reducionistas, ao reconhecer que os fenômenos humanos resultam da interação entre dimensões biológicas, psicológicas e sociais. O avanço da interdisciplinaridade evidencia que problemas complexos — como saúde, comportamento, aprendizagem, desigualdade e bem-estar — não podem ser explicados adequadamente por uma única área do conhecimento. Ao integrar saberes e valorizar o contexto histórico, cultural e institucional, o modelo biopsicossocial amplia a capacidade analítica das ciências humanas e sociais, fortalecendo uma leitura mais ética, crítica e comprometida com a complexidade da vida em sociedade.

Síntese da Unidade III

Síntese Integrada - Unidade III

A Unidade III permitiu compreender a trajetória histórica da humanidade a partir das grandes revoluções cognitivas, agrícolas e científicas, evidenciando como a capacidade simbólica, a produção cultural e o desenvolvimento da ciência transformaram profundamente as formas de organização social, econômica e política. Conforme analisado por Harari, a Revolução Cognitiva possibilitou o surgimento da linguagem complexa, das ordens imaginadas e da cooperação em larga escala, criando as bases para instituições, identidades coletivas e sistemas normativos. A Revolução Agrícola consolidou a sedentarização, a ampliação populacional, o surgimento de hierarquias sociais, a burocratização inicial e o aprofundamento das desigualdades. Já a Revolução Científica inaugurou um novo paradigma de produção do conhecimento, baseado na observação, na experimentação e na racionalização, impulsionando inovações tecnológicas, o capitalismo industrial e a reorganização das relações entre Estado, mercado e sociedade.

Esses processos demonstram que a história humana não pode ser explicada exclusivamente por determinantes biológicos, mas pela interação dinâmica entre cultura, tecnologia, organização social e produção simbólica. A capacidade de criar e sustentar realidades compartilhadas — como dinheiro, ciência, leis, instituições e sistemas de crença — constitui o principal diferencial dos sapiens, permitindo formas complexas de cooperação, governança e transformação social.

O módulo também aprofundou a compreensão do ser humano como sujeito biopsicossocial, superando a lógica fragmentada da disciplinaridade científica. A interdisciplinaridade emerge como resposta à complexidade dos problemas contemporâneos, integrando dimensões biológicas, psicológicas e sociais na análise dos comportamentos, da saúde, da aprendizagem, do trabalho e das desigualdades. Essa perspectiva reconhece que fatores orgânicos, emocionais, cognitivos, culturais, econômicos e institucionais atuam de forma interdependente na constituição da experiência humana.

Ao articular as contribuições das humanidades, das ciências sociais e das ciências da saúde, o modelo biopsicossocial amplia a capacidade de interpretação crítica da realidade, evitando explicações simplificadoras ou deterministas. Essa abordagem fortalece a compreensão ética do humano, orienta políticas públicas, práticas educacionais e intervenções sociais mais integradas e sustentáveis, e contribui para a formulação de soluções sensíveis à diversidade de contextos sociais.

Assim, o Módulo III consolida uma visão ampliada do humano como ser histórico, simbólico, relacional e complexo, cuja existência é moldada simultaneamente por biologia, cultura, tecnologia e organização social. Essa compreensão fortalece a capacidade do estudante de analisar criticamente fenômenos contemporâneos, reconhecer interdependências entre indivíduo e sociedade e desenvolver leituras mais responsáveis e contextualizadas dos desafios sociais do século XXI.

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